Esse título inusitado desperta curiosidade, mas não é de minha autoria. Revisando arquivos e materiais das disciplinas de escrita científica que venho ministrando há 15 anos no Programa de Pós-Graduação em Odontologia da UFPel, me deparei com um artigo que serviu de base para as primeiras ementas dessas disciplinas. O título veio do artigo.
Criada há 15 anos, a disciplina “Oficina de Redação de Artigos Científicos” consistia em uma imersão de uma semana, onde os alunos desenvolviam um artigo do início ao fim. O prazo para submissão do trabalho era de uma semana após o término da disciplina, sendo esse compromisso crucial para a avaliação final e nota na disciplina. Para serem aprovados, era necessário submeter o artigo à publicação.
Durante essa imersão, eu ministrava aulas sobre redação científica todas as manhãs, cobrindo desde o uso das bases de dados até a submissão final dos artigos. Professores convidados compartilhavam suas experiências sobre temas específicos. Nas tardes, os alunos, auxiliados por um professor(a) orientador, dedicavam-se à escrita dos artigos em duplas.
Essa disciplina foi amplamente bem-sucedida, muito por conta da adesão e entusiasmo de alunos e tutores. Os projetos não eram parte da dissertação ou tese dos alunos, mas sim trabalhos desenvolvidos ao longo do programa ou por orientandos anteriores que ainda não haviam sido publicados. Fui convidado para ministrar essa disciplina em outros programas e instituições do país e a repercussão sempre foi muito boa.
O artigo referência para a disciplina era interessante não só pelo título; também apresentava uma lista de dez práticas que garantiriam a produção de textos científicos monótonos. A proposta era, na verdade, evitar esses erros.
No início do artigo, o autor faz uma afirmação com a qual sempre concordei:
“Embora os cientistas frequentemente afirmem que suas pesquisas são repletas de emoção e aventura, o encanto desse entusiasmo se perde com frequência na estrutura e linguagem previsíveis e engessadas de suas publicações científicas.”
Ele então propõe uma lista, aqui adaptada, para elaborar artigos científicos de forma consistentemente tediosa:
1. Fuja do foco
2. Renuncie à originalidade e à personalidade
3. Elabore textos excessivamente l o n g o s
4. Elimine as implicações e qualquer especulação
5. Dispense ilustrações, especialmente as mais claras
6. Exclua etapas cruciais do raciocínio
7. Abuse de abreviações e termos técnicos
8. Evite o ânimo e a linguagem vívida
9. Reduza o valor do estudo aos elementos estatísticos
10. Cite uma abundância de artigos para afirmar o óbvio
Além de apontar o que evitar, o artigo é um lembrete de que as publicações científicas podem servir a diversos propósitos, inclusive o de orientar novos pesquisadores. O autor conclui com uma reflexão que ressoa fortemente hoje, sobre a necessidade de tornar a ciência mais acessível e compreensível:
“Num contexto de competição crescente entre áreas educacionais e disciplinas científicas, destaco a premente necessidade de tornarmos as contribuições científicas mais acessíveis e legíveis, visando atrair novos talentos para a ciência e promover um entendimento integrado.”
Eu me pergunto o que o autor diria sobre o papel das redes sociais na disseminação da ciência hoje em dia. Ouso dizer que ele advogaria por uma abordagem que evite tanto a monotonia, como seu artigo já mencionava, quanto a superficialidade, tão presente nas plataformas digitais atuais.

